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Nuno Mindelis (guitarrista)

Nuno Mindelis 


Marcelo Naudi - Você sempre foi guitarrista?
Nuno Mindelis - Sim, mas aprendi com violão (tocava imitando guitarra) e sempre toquei outros instrumentos também, gaita, baixo, bateria, etc.

Marcelo Naudi - Qual foi o seu primeiro instrumento?
Nuno Mindelis - Um violão de lata de azeite de 5 litros, com cordas de fio de pesca, que eu mesmo fiz, por volta dos 5 ou 6 anos. A primeira guitarra uma Gibson Lespaul Custom, aos 17, tenho até hoje.

Marcelo Naudi - Fale-nos um pouco sobre o começo da sua carreira profissional.
Nuno Mindelis - O primeiro cachê profissional aconteceu aos 14 anos por participação (para a Polygram ou a subsidiária dela, não me lembro bem) num disco de música africana de uma banda bem popular da época. O produtor ouviu falar de mim, mandou me pegar na escola, (ainda usava calção) queria misturar Hendrix com música típica africana. Basicamente, quando estava engrenando aos 15 anos, já tocando em festivais e gigs em geral e o nome começando a sair nos jornais locais fui exilado devido à guerra civil e fui parar no Canada, com a roupa do corpo. Quando começou a engrenar no Canada, já umas gigs com profissionais, soube que meu pai estaria no Rio de Janeiro, não o via há um ano por causa da guerra e fui encontrá-lo. Quando as coisas estavam engrenando no Rio vim para São Paulo, em 1976. Como casei e tive três filhos em sequência, tive que arrumar um trampo regular e fiquei de molho até bem tarde. Só no final dos 80s é que consegui remontar uma banda, sair por aí outra vez. (embora nunca tenha parado de toca, por mais que trabalhasse o dia todo e fizesse faculdade à noite, me formei em direito). Sabe como é, era um exilado sem absolutamente nada, precisava garantir o leite das crianças.

Marcelo Naudi - Quais bandas ou guitarristas você costumava ouvir que acabaram influenciando seu estilo de tocar?
Nuno Mindelis - Até 1975 ouvi literalmente tudo o que rolava de música no planeta, incluindo música brasileira. Shadows e Beatles aos cinco anos de idade, Big Bill Broonzy aos 12, Santana, Clapton, Hendrix, Peter Green, Mayall, e os mestres do blues de Chicago na mesma época (Howling Wolf, Elmore James, Willie Dixon, Lightning Hopkins, Muddy Waters, BB/Albert/Freddy King) todo o rock e blues inglês, o progressivo, Genesis, Gentle Giant, King Crimson, o começo do progressivo com Steppenwolf, Zeppelin, Deep Purple, Uriah Heep, Yes, Woodstock, Southern rock, Gratefull Dead, Allman Brothers, Folk com Dylan, Joan Baez, Woodie Guthtrie, Jazz com Coltrane, Dexter Gordon, Chick Corea, Mahavishnu Orquestra, (John McLauglin) Pink Floyd, enfim, o que você quiser. Tudo isso influenciou o meu estilo, mas o blues (que influenciou esses todos) me influenciou mais, compreensivelmente. Tudo era blues. E se repararmos, é até hoje. Beyonce é blues.

Marcelo Naudi - Qual é a posição da guitarra na música de hoje?
Nuno Mindelis - Quanto mais acho que está moribunda pela profusão de gêneros que não a usam, mais os jovens me provam que ela está bem viva. Os shows sempre estão cheios de netos, pais e avós.

Marcelo Naudi - É possível conciliar interesses mercadológicos e artísticos?
Nuno Mindelis - Sim, se dois fatores existissem (no caso da música) o primeiro: se os mercadores das grandes ditadoras da música vendessem de fato música em vez de lixo (o povo gosta de música boa quando lhe é dado conhecê-la e passaria a comprá-la com certeza, mas não lhe é dada essa chance) e segundo a ocorrência da pirataria, que matou a possibilidade mercadológica.•.

Marcelo Naudi - Existe algum novo guitarrista ou banda que venha chamando sua atenção atualmente?
Nuno Mindelis - Tem muita gente boa, mas infelizmente sou forçado a dizer que não me lembro de ninguém agora. John Mayer, Derek Trucks, talvez, mas não é nada novo.

Marcelo Naudi - Você com certeza é uma das maiores referências da guitarra blues no Brasil, existe uma nova leva de guitarristas pensando no blues?
Nuno Mindelis - Sim, uma leva realmente grande e que é ignorada pelas mídias, como todo o blues aliás. Esta cheio de jovens talentosos, no Brasil Artur Menezes, Igor Prado, e outros.

Marcelo Naudi - Faz 23 anos que "Blues & Derivados" saiu, como é para você ouvir este disco?
Nuno Mindelis - Coincidentemente ouvi há bem pouco tempo, depois de mais de 10 ou 15 anos sem ouvir, talvez mais. ...achei algumas sonoridades bem legítimas, e achei algumas coisas bastante pretensiosas. Algumas mal cantadas. No meio, alguma composição digna de alguma nota.

Marcelo Naudi - Conte-nos qual foi o disco mais importante que você já ouviu.
Nuno Mindelis - Talvez Melting Pot, de Booker T. & The MGs. Talvez Big Bill Broonzy, talvez Axis Bold as Love. Talvez Dark Side of the Moon. Talvez ...

Marcelo Naudi - E os equipamentos? Qual é o timbre de guitarra perfeito pra você? Conte-nos sobre o seu set atual.
Nuno Mindelis - O timbre perfeito para mim é o de uma Gibson e uma Fender plugadas num amplificador Fender Twin Reverb ou Fender Super Reverb. E as variações que podem surgir daí com wah wah, reverb analógico, tremolo. É sempre isso que uso, uma Gibson e/ou uma Fender num Fender Twin. Atualmente, ao vivo, uma Gibson SG 1972 e uma Strato 62 reissue e um Fender Twin Reverb Blackface 65 reissue. Um Wah Wah Cry Baby, um delay da Line Six (para uma música somente, no show todo). Em estúdio uso Lespaul 68, uma Shecter Telecaster que ganhei da Guitar Player americana, uma Strato 58, e mais alguma coisinha.

Marcelo Naudi - Quais são as suas atividades musicais hoje em dia?
Nuno Mindelis - Gravei em fevereiro um disco nos EUA, com produção de Duke Robillard (Bob Dylan, Tom Waits, John Hammond, Suzan Tedeschi etc. atualmente guitarrista de Bob Dylan) para o selo dele Duchess Blue, deve sair em agosto ou setembro aqui, se tudo der certo. Ao mesmo tempo trabalho num disco em português que já tinha começado a fazer quando tive que ir aos EUA gravar esse outro. Desde Fevereiro tento voltar aos EUA , queria ter acompanhado a mixagem / masterização e não consegui, tenho shows marcados até outubro já. Vou tentar sair 10 dias em agosto, quem sabe. Vou tocar agora no Best of Blues, (festival com Dr.John, John Mayall, Taj Mahal, Shemekia Copeland, Chris Cornell, Buddy Guy). Tem mais coisas relacionadas, produzo um Festival de música também, este ano será em outubro, enfim, ando sem tempo ultimamente.

Marcelo Naudi - E os projetos, alguma novidade?
Nuno Mindelis - Os meus cinco álbuns mais importantes serão relançados em breve (junho ou julho) e sairá uma caixa também. (Substancial Music, um time esforçado e perfeccionista, de uma dedicação elogiável). Depois o disco novo. Depois quero acabar esse em português, do qual estava gostando bastante quando interrompi o processo. Eu me sinto bem quando ouço os rascunhos, parecem indicar uma boa marca registrada, uma assinatura interessante.

Marcelo Naudi - Deixe-nos alguma mensagem para os futuros guitarristas que vão ler esta entrevista.
Nuno Mindelis - O que sobra sempre é a nossa arte, é nela que devemos concentrar-nos com vagar, responsabilidade, olhar profundo, para criar algo que dure que tenha consistência artística, que mude a vida das pessoas, que faça a diferença. Pense "quero ser bom no que faço" ao invés de "quero ser famoso”. Ficar famoso pode ser (eventualmente, nem de longe sempre) uma decorrência de um trabalho bem feito. Não se deve subestimar a fase de aprendizado, são horas e horas de trabalho diário, de anos e anos, até se chegar a ser especialista em seja que atividade for. O nosso maior legado, é a nossa arte, não é a fama, nem a autopromoção, nem a fofoca da coluna social. É o trabalho, o álbum antológico, a densidade da sua arte. É isso que o tempo vai julgar.

 

Entrevista realizada em junho/2013.

http://www.nunomindelis.com