? Rafael Bittencourt (guitarrista do Angra) | Curso de Guitarra Online - Guitar Express

Rafael Bittencourt (guitarrista do Angra)

Rafael Bittencourt

 
 
 

Marcelo Naudi - Como foi o seu processo de aprendizado na guitarra?
Rafael Bittencourt - O processo foi um pouco tortuoso, porque na época no Brasil, há praticamente 30 anos atrás era muito difícil encontrar equipamentos bons, professores especializados, escolas, vídeo aulas não existiam, hoje você tem a informação toda mastigada, muitos professores capacitados, instrumentos com bons preços e na época, quando a ditadura ainda existia, no comecinho de meu aprendizado, você não tinha instrumentos legais e tal neh, isso dificultou, mas foi assim, eu fui pulando de professor em professor, tive vários professores diferentes, até eu começar a entender a guitarra, eu comecei pelo violão, até começar a entender mesmo as grandes diferenças entre a guitarra e o violão demorou bastante para mim, mas o principal que eu acho que dessa época o saldo positivo que eu carrego até hoje é a cabeça sabe... É você saber ouvir, saber apreciar, é você gostar e cultivar, e simplesmente apreciar sem estar analisando e entendendo o que você está ouvindo. O seu ouvido tem que ser intuitivo, tem que deixar a música tocar a sua emoção, isso é muito importante. Conforme você vai aprendendo sobre harmonia, sobre teoria, é comum você cair no erro de esquecer como que se ouve através da emoção, através da intuição.

Marcelo Naudi - Que tipo de música você ouvia quando começou a tocar guitarra e o que está ouvindo atualmente?
Rafael Bittencourt - Não mudou muito. Não tem nada que eu ouvia e que deixei de ouvir, não tem nada que eu apreciava nesta época e eu que deixei de apreciar, eu gostava muito de Queen, e acho que a minha base foi Queen, Raul Seixas, um pouco depois Iron Maiden, Rush também eu escuto muito Rush antigo, estas três ou quatro são muito fortes influências na minha música até hoje. Aí eu fui acrescentando, passei a gostar muito de U2, que era uma banda que na época eu não gostava, passei a gostar então na verdade não existe nada que eu gostava muito e deixei de gostar, mas existem muitas coisas que eu não gostava e passei a gostar então hoje eu estou com o gosto mais apurado e estou muito mais aberto para ouvir diferentes estilos.

Marcelo Naudi - Quando você começou a tocar profissionalmente, como foi?
Rafael Bittencourt - Ah, a coisa começa meio que naturalmente, porque você está no meio amador, está fazendo shows amadores e de repente começa a ser remunerado. Então é um processo meio lento porque você é remunerado, mas começa a ter muito gasto, você tem que pagar a gravação, tem que pagar ensaio, você tem que pagar a manutenção da guitarra, uma série de coisas. A transição não é assim brusca, e para mim foi assim, eu comecei a dar aulas de guitarra, foi quando eu me profissionalizei e comecei a ter uma remuneração, foi mais com as aulas de guitarra e fazia também alguns shows com as bandas que eu tinha e era pouco remunerado, mas já tinha uma cara de profissional porque a atitude era profissional, a gente queria ser profissional, a gente se comportava como profissional porque queríamos fazer daquilo uma carreira, independente da remuneração.

Marcelo Naudi - E você ainda trabalha com aulas?
Rafael Bittencourt - Alguns cursos. Eu não tenho um material bem formalizado, apesar de eu dar aulas há 20 anos já, minhas aulas seguem um pouco a dinâmica da necessidade daquele momento, do que a pessoa está precisando naquela hora, às vezes o aluno está tirando alguma música, ás vezes ele está trabalhando alguma coisa com a banda dele, então eu prefiro dar uma orientação na prática mesmo, porque eu sentia isso nos meus professores, quando eu tinha aulas práticas, mas quando eu estava aprendendo alguma coisa muito distante da minha realidade, as informações não conversavam. Então eu tinha uma banda e o que eu estava aprendendo na aula não estava melhorando exatamente as minhas coisas na banda, ela estava abrindo caminhos, abrindo horizontes, mas não necessariamente sendo aplicado no meu dia a dia com a banda, enfim... então eu procuro investigar se o cara toca na banda, as vezes ele toca na igreja no domingo, as vezes ele acompanha uma banda caipira, as vezes o cara tem uma banda de heavy metal, são realidades muito diferentes, então eu tento fazer uma diferença e ajudar, dar uma consultoria mesmo naquilo que o cara está fazendo. Partindo daquilo tentar ampliar, porque eu acho que fica muito mais real para ele, por isso eu não pensei em formalizar em apostilas.

Marcelo Naudi - Você acredita que alguns guitarristas têm problemas em encontrar sua própria linguagem porque estão preocupados demais em mostrar suas influencias e técnicas?
Rafael Bittencourt - Eu não sei se é por estarem preocupados em mostrar suas influências e técnicas, mas sei que é muito difícil encontrar a própria linguagem. Não sei exatamente as razões porque eu acho que são razões variadas, o cara pode não encontrar a própria linguagem às vezes pela própria insegurança de se mostrar. Eu acho que esta é a principal razão, quando você está procurando sua própria linguagem você se expõe, você está experimentando coisas que não foram feitas, você está mostrando quem você é; você vai se deixar ser avaliado, porque não tem nada nesse sentido, você vai reconstruir e para isso você precisa de coragem, de se mostrar de ser quem você é, mostrar tua cara, mostrar suas diferenças e para isso você tem que aceitar as suas diferenças, então é um trabalho que a gente não vê tantas pessoas tendo sucesso nesta busca da linguagem pela falta de coragem e não por outros motivos até porque na verdade, a pessoa está lá como mais uma, então as vezes acabam usando isso como disfarce para não mostrar o que realmente é.

Marcelo Naudi - Como muitos guitarristas você é ou já foi aficionado por equipamentos?
Rafael Bittencourt - Já mas nunca fui muito consumista, eu sempre fui muito desprendida sim o de ter muita coisa sabe. Então é muito comum até hoje eu chegar ao ensaio do Angra e estar faltando parte do equipamento, estar faltando alguma coisa que eu acabei não comprando e não é porque eu sou pão duro ou mão de vaca é porque às vezes eu acabo esquecendo mesmo. Eu entro nas lojas de guitarra e tem tanta coisa que se você se deixar levar você quer a loja inteira. Você entendeu? Então o desejo eu tenho de ter várias guitarras, vários pedais, vários equipamentos, mas eu acho que com o tempo eu me acostumei a simplesmente não comprar estas coisas. Eu não tenho tantos equipamentos, eu gosto, gosto de ver revistas, gostos de ver os lançamentos, gosto de testar, saber o que é melhor e o que não é, mas agora eu acabo pedindo muita coisa emprestada, aquilo que só vou usar uma vez na vida, algum efeito que vou usar apenas naquela música, então eu falo: “me empresta aquele pedal”, eu sei as pessoas que tem e acabo pedindo.

Marcelo - Quando você sola você prefere improvisar ou criar com antecedência?
Rafael Bittencourt - Cara é o seguinte, eu tenho mais facilidade de criar com antecedência, acontece que eu tenho pouca memória, então na hora de tocar eu esqueço o que tinha programado e acabo sendo obrigado a improvisar e meu improviso não é bom, aí eu me pego no erro de simplesmente não ter decorado melhor aquilo, daí fica não tão bem decorada a coisa e também fica um improviso tosco, então eu não sou um cara referencia para os outros se inspirarem nesta parte de solo, eu sou muito relapso. Solo é uma coisa que eu não dou muito importância sabe, então eu acabo errando, tocando nota fora, eu não sirvo como referência para solo, eu não aconselho. Aconselho outros caras melhores.

Marcelo Naudi - Quando você compõe uma música, como funciona o processo de criação?
Rafael Bittencourt - A criação sim, eu levo como dedicação e muita seriedade. Sempre que eu estou tocando eu estou criando. Até quando estou afinando a guitarra faz parte já da composição, porque tem dias que já na afinação o som parece diferente. O seu estado de espírito muda e parece que afinação é toda diferente... O seu ouvido pode ouvir mais ou menos harmônicos, ele pode entender ou interpretar cada som de um jeito neh, e isso começa na afinação. Eu sou muito purista e tal, com a estrutura, com o que se chama de macro forma que é a estrutura, é a grande da música, cada pedacinho da música que a gente chama de micro forma tem que estar muito bem inter-relacionado entre si, vamos dizer num verso, num riff, num refrão, cada parte tem que estar bem relacionada dentro da própria micro estrutura e aquela estrutura tem que estar bem relacionada no todo. Então eu passo muito tempo tocando a música de várias maneiras diferentes, mudando o tom, mudando o jeito de fazer, até chegar ao que eu acho que ficou legal. E raramente eu fico satisfeito. Eu digo assim que uma composição a gente nunca termina, a gente desiste. Tem um momento em que a gente desiste dela porque não é uma coisa exata. Você pode tocar num tom diferente num dia, tocar com outro andamento outro dia, então eu deixo todas meio que em aberto, porque eu também tenho dificuldade em memorizar minhas músicas, porque na minha cabeça quando eu estou tocando estão lá um leque de possibilidades e às vezes eu não me lembro qual foi a possibilidade que eu gravei, então às vezes eu acabo tocando de um outro jeito, que era o jeito que eu fazia em umas das primeiras vezes em que tocava aquela música. Principalmente quando faz tempo que eu não estou tocando ela, aí eu pego o violão e começo a tocar tudo diferente do que eu já gravei, entendeu? Mas eu sou purista com relação à criação e a coerência quando toco.

Marcelo Naudi - Como você equilibra o seu talento técnico com sua habilidade de composição?
Rafael Bittencourt - Na verdade meu talento técnico ele é meio básico, então na verdade eu camuflo meus limites... estou sendo sincero.. To sendo humilde em falar do meu talento técnico, mas super convencido em falar da minha composição. Então eu não to sendo cara de pau. Eu acho que a minha técnica se fixou nos padrões. Eu não tenho assim um conhecimento muito vasto de tappings e técnicas diferentes, alavanca eu não uso, uso pouco duas mãos, não uso ligados, digitações muito abertas.. São técnicas que eu não uso. São técnicas que estão em todas as revistas mas que eu não sei fazer, eu camuflo esta falta de técnica numa estruturação sofisticada da música, desta maneira , parece que a técnica esta lá, mas realmente é a estrutura sofisticada que cria isso, por que assim eu crio assuntos diferentes. A minha idéia, não é tentar caminhos tortuosos por que já é difícil você fazer bem o que você se propôs a fazer, então nesta fase eu estou tentando amadurecer mais o que eu já sei do que trazer novas coisas.

Marcelo Naudi - Como anda o Bittencourt Project?
Rafael Bittencourt - O Projeto foi lançado em 2008, e neste ano, umas 3 revistas me colocaram entre os 3 melhores guitarristas do Brasil, coisa que nunca tinha acontecido comigo, e isso me trouxe credibilidade e me trouxe uma imagem desassociada do Angra, eu não conseguia nem me imaginar fazendo qualquer outra coisa, então eu um álbum com músicas bem variadas bem diversificadas, justamente para mostrar um outro lado, outras coisas que eu sei fazer, então o principal foi isso. Agora vendagens... sucesso...shows, é muito difícil fazer, porque são recursos reduzidos, então, está da seguinte maneira: desde 2008 já foi lançado no Japão e no Brasil, pela internet divulgou-se em vários países, recebo um feedback bom de muitos países, mas eu estou agora com a idéia de retomar isso para gravar novas coisas no ano que vem, em 2012. Neste ano vai ter um festival da Yamaha para a procura de novos talentos, o Yamaha Brazilian Beat, então as bandas poderão se inscrever no site www.yamaha.com.br, para concorrer como a melhor banda brasileira, então terá várias eliminatórias, em São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, tal e eu estarei fazendo apresentações do meu show nestas cidades. Então para mim será bom, será como uma turnê pelas cidades, vou fazer cinco shows pelas cidades e a banda que ganhar, vai ganhar uma banda inteira de instrumentos, vai ganhar bateria, teclado, guitarra, microfone, tudo porque a Yamaha é a única empresa que realmente produz tudo isso e com qualidade. Então é uma parceria da Yamaha com a minha banda, então este ano será legal para mim, porque é muito difícil financiar uma turnê, pagar passagem de avião dos músicos, então a Yamaha estará financiando isso para mim.

Marcelo Naudi - Como produtor artístico, que dica você daria para estar bandas que irão concorrer?
Rafael Bittencourt - Estilo, ah eu não contei.. também vou estar como júri na primeira etapa, estarei selecionando algumas bandas e acho que a questão do estilo é fundamental, to vendo muita gente querendo me agradar tocando músicas parecidas com Angra, mas isso não me impressiona, porque eu sei fazer aquilo de cabo a rabo e também sei notar as falhas muito fácil, mas se alguém fizer músicas no estilo do Barão Vermelho, vai se diferenciar muito mais para o meu conhecimento e se o cara fizer isso bem, melhor ainda neh eu dou muito valor às coisas brasileiras, com letra em português e ritmos brasileiros dou muito valor para isso, porque é o que eu gosto. Então eu acho que estas coisas irão contar muito, o estilo e especialmente uma identidade nacional.

Marcelo Naudi - Qual é a importância da música na sua carreira?
Rafael Bittencourt - É difícil dizer por que são muitas coisas neh, é uma vida inteira, a música é minha companheira, é minha terapia, é o meu trabalho, é como se fosse uma amiga, na hora em que eu pego o violão é a hora em que estou meditando... é a hora em que estou lá, em paz. O que eu aprendi com a música é que ela não é uma coisa totalmente tão intuitiva quanto a gente acha. É uma mistura entre o emocional e o intuitivo e esta mistura que dá o equilíbrio porque na própria vida você não pode se deixar levar somente pelo lado do coração e nem ser muito racional para tudo, tem que ter um caminho aí no meio, tem que ser uma conversa entre estes dois hemisférios do cérebro onde você vai encontrar o equilíbrio.

Marcelo Naudi - Após tantos anos de performances e composições de alto nível, o que o motiva a continuar nessa carreira?
Rafael Bittencourt - O que me motiva é a paixão pela composição, por fazer música, muitas vezes a sensação de estar tocando as pessoas é uma sensação legal. Você nem conhece a pessoa, aí ela chega e fala: olha meu pai estava com câncer, ele tava mal e aquela música, daquele disco, foi meu alento em várias noites, sabe assim;.... eu não parava de ouvir aquela música, eu chorava... aí você pensa cu nem tava lá vivendo aquele drama, nem conheço a pessoa e de alguma maneira eu participei. Isso para mim é muito gratificante. Então o que motiva é você saber como e ter vontade de chegar ao coração das pessoas eu fico compondo e pensando, que acorde eu vou colocar aqui para ferir o cara, agora eu vou colocar aquele acorde que o cara vai ficar amargurado, é como se fosse uma brincadeira mesmo, agora para surpreender, penso agora eu vou levar a música aqui vou fazer uma queda e mudar o tom, aí o cara vai pirar.. eu começo a imaginar como a música vai brincar com o sentimento do cara. Então o que me motiva é essa brincadeira... é como se fosse mágica.. para mim a harmonia, a composição é algo incrível. Você fica escondendo ali a cartada final às vezes você tá tocando e pensa nossa, olha esta idéia. Como é que eu vou chegar e apresentar esta idéia? Então eu fico chegando nesta idéia de vários jeitos diferentes, até encontrar uma que surpreenda para que o cara que está ouvindo diga: nossa que fdp, e é legal também enganar a pessoa, porque é assim, muitas vezes eu tenho uma idéia e crio toda uma proposta para chegar nela e a pessoa fica sempre matutando porque ela acha que a idéia vai ficar naquilo, é onde eu falo que é intuitivo. Por exemplo, eu tenho 3 idéias que saíram do nada então vamos dizer a parte racional vai de como o cara vai ouvir esta seqüência, vamos supor que eu comece com uma guitarrinha, aí o cara acha que a idéia é a guitarrinha porque a música começou com a guitarrinha, mas na verdade a composição não começou aí. Começou às vezes com uma outra coisa que às vezes parece como um detalhe, mas que foi a idéia em que eu fiquei conduzindo maneiras de chegar naquilo. Então é isso que eu gosto. Se eu pudesse ficava só fazendo isso.... muito menos show e mais composição. Ficar em casa tocando, fazendo um som. Mas é engraçado que depois que eu termino a música, eu nem ouço mais. Eu me canso dela eu toco tantas e tantas vezes que me dá vontade de fazer um disco novo, entendeu? Eu também me importo bastante com a letra, eu gosto muito de trabalhar baladas, sonoridade e sentido. E aí isso também vai ajudando a casar isso com as sensações da música, de estar criando uma dinâmica, um discurso onde a música tem que acompanhar, uma coisa tem que vir junto da outra. Então é uma alquimia... você vai mudando até que você pensa: isso aqui vai fazer a diferença. Às vezes não tem um sentido muito exato, mas faz o cara viajar assim sabe... não é uma coisa que tem um sentido muito objetivo, mas desperta a criatividade de quem está ouvindo, imagens e sensações de escrever, você fica viajando dentro da música como um filme que passa dentro da sua cabeça. Eu acho legal isso.

Marcelo Naudi - Tem algo que você tem a acrescentar?
Rafael Bittencourt - Ah... seria mais um conselho... queria dizer que é muito importante estar antenado com a realidade para quem está começando a compor, para que os assuntos sejam de interesse geral. Não adianta falar, está tudo escuro hoje e ficar trancado no quarto. Por mim tudo bem, agora até chegar a alguém que também ache tudo escuro e queira ficar trancado no quarto, é bem difícil. Então, quanto mais o ser humano for libertador, e trouxer caminhos para a pessoa sair daquele quarto escuro, é melhor. Porque no fundo as pessoas não querem ficar neste quarto escuro, elas querem um motivo para sair dele. Então quando você está procurando a tua chave, às vezes é o que vale mais do que como um conselho de ouro, você entendeu? Aí a identificação da massa é maior. As pessoas querem não adianta fazer um diário do teu dia a dia que não vai interessar a ninguém vai interessar no que você é parecido com ela, para que ela não se sinta sozinha. É isso. Então quando você compõe e o cara ouve, ele não se sente sozinho e é nesse momento que para mim é como mágica... na madrugada você liga, aquela musica ta rolando e você não se sente sozinho, porque ele está falando de coisas que você também sente.

 


Entrevista realizada em abril/2011. 

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